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PARCERIAS

Jornal Surubiú 
Uruatapera         

Osvaldo Simões - Poeta 
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Acari, o peixe predileto dos

            (chi) ximangos

 

 

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  Colunas - Elliézer Martins  
Alenquer no tempo
Alenquer, pedacinho da Amazônia onde nasci e onde minha infância foi uma torrente de felicidade, te tornaste uma lembrança que me transporta a esse tempo de liberdade plena e me atordoa. Naquele tempo, do alto da serra, acomodado no pé do Cruzeiro, eu ficava admirando o pulsar cadenciado do teu corpo esparramado lá embaixo, pessoas indo, pessoas vindo, umas pelas praças outras pelas artérias que se entrecruzavam; mais adiante, o humilde Itacarará aderindo à corrente do Surubiú, com barcos chegando e barcos saindo;  e, lá no confim, o céu azul tocando as matas do igapó... Fascinavame, porque eu tinha a sensação de estar dentro de ti e tu dentro de mim, eu era tu e tu eras eu, éramos um só: mãe e filho unidos pelo amor eterno! ...

 Alenquer, és a terra onde primeiro senti a dor, vi a luz e distingui a cor, e onde brinquei o primeiro brinquedo, falei a primeira palavra, aprendi a primeira letra e o primeiro número; também, onde pela primeira vez tive uma mulher debaixo de meu corpo ardente amadurecendo...

 Alenquer, berço dos meus pais e pais dos pais dos meus pais e que deles guarda os seus ossos convertidos na fertilidade do teu sagrado chão! Desta forma és parte da minha carne e de todos os meus, onde quer que nasçam. Por isso, te amo...

 Mas este é apenas um tempo remoto que ecoa dentro de mim como lembrança de um povo otimista e realizador, exigindome uma posição crítica diante deste quadro deprimente em que te encontras. Estás profundamente transformada, de jovem alegre e serena que eras, estás envelhecida e maltrapilha...

 Vem, dáme as mãos, deixame trocar esta roupa que não é apropriada para encobrir teu corpo, afinal és uma rainha, a minha soberana... Anda, vem, deixame trocála, está puída demais... As casas estão encardidas e ruindo... As calçadas quebrandose todas e as ruas esburacadas, cheias de poeira e lixo...  O aeroporto tornouse uma rua sem infraestrutura, a mesma coisa os bairros que foram surgindo. Os barcos não mais aportam no trapiche estragado... A casta política, por incapacidade, desmazelo ou leviandade administrativa, te fez perder muito terreno... Ah, cadê teus rios? Cadê tua frente? Meu Deus, a favela esconde!...

Mas o pior de tudo é que teus filhos inimizamse entre si e a harmonia e a paz arribaramse para outras plagas parece que levando consigo a esperança do teu povo... Vives como se morta estivesses...

Por favor, não chora, minha querida. Ainda és nova e o teu vigor é a tua juventude. Nem todos são iguais. Alguns, embora pequeno o número deles, não te esqueceram. O tempo dos que te fazem mal está passando. Muitos já se foram. De alguns, até já nem mais se ouve o nome. Pensa que tudo foi um pesadelo, um sonho ruim do qual despertas agora, ainda em tempo de recomeçar tudo, e que a honestidade e a responsabilidade serão as substâncias principais do teu soerguimento...

Sim, sei, mas és rica e teu povo é inteligente e trabalhador. O que te sobrou é o suficiente para multiplicares indefinidamente tudo o que esbanjaram e se apropriaram. Sei que é difícil esquecer, mas tenta. Antes, porém, perdoaos. Sentirteás bem perdoandoos, afinal muitos são teus filhos também. É preciso aprender a perdoar...

Vem, dáme as mãos, quero sentilas como sentias as minhas quando brincava na Praça da Igreja, correndo e gritando debaixo das mangueiras e dos benjaminzeiros, ou quando escalava a serra do Cruzeiro à procura de tucujá para pegar passarinho ou, ainda, quando tomava banho no rio deslizando no correliso da ribanceira barrenta. Lembraste? Era todo santo meiodia, naquele silêncio preguiçoso depois do almoço, sol a pino, areão queimando os pés e nossa gritaria quebrando o sossego que embalava a sesta dos mais velhos. Éramos um bando de meninos sapecas. Ah, estás rindo! Meu Deus, como és linda assim, sorrindo! É bom lembrar o tempo bom!...

Vem comigo. Vamos olhar o ninho que a natureza construiu dentro de ti. Olha como o Itacarará, aderindo à corrente do Surubiú, se contorce todo, não se cansando de beijarte os pés, agradecido e engrandecido por o teres feito navegável, até parece dar inveja ao Amazonas que passa ao largo. Olha como são imensos os campos, as matas, os rios, os lagos. Olha como vicejam as plantações, florindo e frutificando, breve os frutos serão colhidos e abarrotarão os paióis e armazéns, então, lá fora, o milho, a castanha, o cumaru, o feijão, o arroz, o gado, dirão que continuas bela e rica.

Vamos, vem comigo. Olha as garças, os miuás, os mauaris, as piaçocas, os marrecos, as arirambas, a passarada toda em bandos, vê como enfeitam os igapós que rendilham os lagos e os igarapés! Repara só a paciência do joãodebarro construindo sua casa no galho do catauarizeiro! Que bonito, não? Ouve o cantar das araras e dos papagaios lá para o âmago dos castanhais e os periquitos barulhentos nas mangueiras! Ouve os cânticos do bemtevi, do rouxinol, do canarinho!... Observa o tucano e o mutum voando juntos e a avidez das pipiras na goiabeira! Observa também a esperta iraúna botar sorrateiramente o ovo no ninho do ingênuo japiim para ele chocar junto com os seus! Estás ouvindo essa melodia maravilhosa vindo do castanheiro? Sim, é o uirapuru. Notaste que todos os outros animais param o que estão fazendo para ouvilo? Os corpos em tensão relaxamse, a tristeza murcha...

Como é magnífico o pôrdosol em filetes brilhantes cor de sangue, lá no horizonte. Mais um dia que se esvai e uma noite que se aproxima, dois gigantes em disputa pela contemplação de tua beleza. Ouve o sino da Igreja musicálo. Seis horas. Ave Maria! Era sempre nesta hora que te recolhias na casa do Criador para meditar. Teu colóquio amoroso com Ele. Era só esta hora soar, muitas vezes antes mesmo, e aparecias apressada, véu na cabeça, adoremus e terço nas mãos, ias pedirlhe que orientasse teus filhos e Ele te atendia prontamente. Hoje, parece que O esquecestes, pois a Igreja de portas abertas está vazia de tua presença e lá dentro Ele te chama e espera pacientemente...

O luar é também uma coisa nunca vista. Oportunidade em que passeávamos pela pradaria caçando tracajás que subiam as ribanceiras para a desova. Gostosas piracaias e serenatas! Ah, quão gostosos eram assados à beira do rio e regados a uma bebida ao gosto, sob humor e risos!... Logo a seguir, pelas ruas da cidade os acordes de violão e de nossas vozes embalavam o sono tranqüilo de tuas donzelas. Meu Deus, como éramos felizes!...

Vamos, erguete, é já chegado o tempo de despertares. Não estás mais sozinha. Há muita gente nova andando nas ruas, são os teus filhos que não te esqueceram, que te amaram sempre e, agora, querem fazer de ti uma Alenquer mais humana, mais progressista, a Alenquer que é para seres sempre. Vem, dáme tuas mãos, vamos vêlos.

O Sítio Boa Esperança
Para quem vem de barco da cidade de Alenquer, o sítio Boa Esperança ficava à margem direita do rio Curuá, quase na boca do Igarapé dos Patos, e estava distante da Vila coisa de uma hora. Suas casas em estilo chalé, todas talhadas em Maçaranduba e cobertas de telha de barro, eram avistadas de uma lonjura que, à maneira que o barco se aproximava, suas pontes iam aparecendo como enormes braços esticados para dentro do rio, que serviam de porto para as embarcações procedentes de toda parte da Amazônia, principalmente de Belém e Manaus, que trocavam as mercadorias que traziam com os produtos da região.

No livro de controle de embarque e desembarque de cargas estão registrados os nomes das embarcações com quem negociava, entre as quais: “Barão de Cametá”, “Moacyr”, “Ajuricaba”, “Parintins”, “Chata Cuiabá”, “Chata Pimenta Bueno”, “Tangará”, “Olinda”, “Miloca”, “Camilo Bentes”, “Urucary”, “Lobo Dalmada”, “Santo Antônio”, “São Cristóvão”, “Leopoldo Peres”, “Augusto Montenegro”, “Carlos Pinto”, “Cruzeiro do Sul”, “Sobral Santos”, “Depenedo”, “Carmelita”, “Marilita”, “Garibaldi”, “Rio Amazonas”, “Livramento”, Aquidabã”, “Golçalves Dias”...

As embarcações “Tangará” e “Olinda” eram pequenas, miruíras, as menores de todas, mas tinham uma força descomunal. As demais precisavam delas, quando encalhavam em alguma restinga ou num baixio qualquer. Eram admiráveis rebocando grandes batelões cheios de cargas, que chegavam a sair fora d'água e ficar penduradas nos batelões quando a ventania era forte.

Este movimento só acontecia na época da enchente, pois na vazante o Lago Grande não permitia a passagem de barcos devido ao canal que ficava raso demais e em algumas partes chegavam a secar. Era neste tempo que os armazéns do Boa Esperança se abasteciam dos produtos da região que vinham do alto Curuá em caçuás nas ilhargas de burros ou em aturás nas costas dos próprios colonos, varando matas e campos naturais.

O sítio Boa Esperança era o único entreposto comercial daquelas paragens. De dia, a casa de comércio estava sempre cheia de gente, principalmente negociantes de armarinhos, castanheiros, caçadores, mulheres donzelas e mulheres da vida, que não se misturavam, enfim, uma leva de gente que mantinha negócios com Fortunato.

 Nas prateleiras da loja era mais fácil encontrar um vidro de perfume francês, uma garrafa de uísque escocês ou uma peça de casimira inglesa, do que em qualquer outra da cidade de Alenquer, tal era o seu sortimento. Essa facilidade era devido ao comércio que mantinha com os barcos que faziam linha com os países guianeses.

À noite, o movimento era diferente pois o negócio tomava outra feição. As mulheres da vida saíam de suas palhoças nas margens dos igarapés e vinham nas canoas pontuar perto das pontes, onde as embarcações se encontravam, e também onde se davam os encontros dos homens baludos. Essas mulheres em sua na maioria tinham vindo das cidades vizinhas, como Óbidos, Oriximiná, Santarém, Monte Alegre,  atrás de uma vida melhor que as safras da juta, castanha, cumaru e balata, poderiam lhes render. Eram todas negociantes e o prazer era o produto que ofereciam, por sinal, muito procurado e rendoso, mas muito perigoso por causa das doenças que transmitia.

Foi uma festa quando chegou o primeiro rádio. Veio gente de muito longe só para vêlo falar, até do Itacarará, Cucuí, Cuipéua e Paracari. Muitos já tinham ouvido dizer que na cidade algumas pessoas tinham esse aparelho, mas nunca tinham visto ou ouvido um falar. Fortunato tratavao como uma coisa rara, que só ele podia mexer e na hora certa quando ligava o gerador do sítio. Certa vez encontrei Quinzinho, o responsável pela limpeza da loja, olhando o rádio como se estivesse vendo alguma coisa anormal: Só pode ser gente muito gitinha para caber aí dentro, exclamou ao me ver, saindo da sala abanando a cabeça, incrédulo.

OS VISITANTES
Na casa principal tem um compartimento conhecido como “Sala das Lembranças”, onde estão os sinais das pessoas que por lá passaram. Esta sala era o orgulho do Fortunato, que não se cansava de falarme a respeito das personalidades que um dia o Boa Esperança acolheu.

 Dizia que fulano de tal "chegou numa noite ardendo de impaludismo, mas dei quinino e ele pode chegar vivo até a cidade e se salvar"; que sicrano "quando passou por aqui fazendo campanha política, não tinha onde cair morto, depois que se elegeu enriqueceu e agora é dono de riquezas na cidade"; e que beltrano "quase coloca o bofe para fora de tanto vomitar, quando soube que comeu guisado de jacaré pensando que era pirarucu". Fortunato fazia questão que eu soubesse tudo o que sabia sobre cada personalidade: Estás vendo esta aqui, perguntavame com aquele seu sotaque de italiano abrasileirado, essa aqui é do governador Magalhães Barata quando ele passou uma hora no Boa Esperança esperando uma tempestade passar para seguir viagem para o Pacoval!... E essa outra? Essa outra é do... Muitas das assinaturas já estão apagadas pelo tempo. Ainda consegui identificar algumas, todas de pessoas que construíram Alenquer e que já estão descansando nos braços de Deus:

Prefeitos: Arnaldo Morais, Aricínio Andrade, Heriberto Batista, Oscar Araújo, José Rafael Valente, Lycurgo Nunes... Fazendeiros: Ludgero (Lulu) Monteiro, Quincas Araújo, Luís de Oliveira Martins, Luís Marques Batista, Hermínio Figueiredo... Vaqueiros: Carão, Tidó, Osberto... Remador: Antonino... Políticos: Tiago Castro, Pedro Beltrão, Benedito Alves, Carino Simões... Empresários: José Hage, Tote Brito, Mariocélio Monte... Pescadores: Raimundo Janjoca, Manoel Gregório, Miguel Buá, Nezinho Duarte, Raimundo Bode, Pompeu, Irineu, Malaquias, Armindo Gola Preta... Linguiceiro: Manoel Português... Pessoa Centenária: Preta Genoveva (alforriada)... Cozinheiros: Dona Coló, Vó Merandulina , Raimundo Gurjão... Castanheiros: Luiz Cota, Zeca, Cipriano... Comandantes de embarcações: Eládio Aragão... Funileiro: Mundico Rocha... Seleiros: Pedro Reis, Olavo Batista... Esculápio: Antonico Bentes... Serventes escolares: Tia Julica, Tio Chiquinho... Tipógrafo: Sebastião (Sabazinho) Silva... Mestres de obra: Benedito Maçarico, Benedito Cué, Manoel Harmônica, Mestre Tutico... Músicos: Aníbal (Atico) Barile, João (Caçador) Tito Alves de Souza, Oracílio dos Reis, Hermínio Milharal, Raimundo Amado... Fogueteiro: Severino Ramos... Doceiras: Maria Geraldina Monteiro Martins, Amélia Bentes Monteiro... Frades: frei Guido, frei Cirilo, frei Patrício, frei Ricardo... Tacacazeiras: Francisca, Anésia... Poetas: Favila Gentil, Aldo Arrais... Deficientes: Euclides, Gerente, Almério, Rosendo, Valmor, Chico Rápido... Negociantes: José Miléo, Antonio Vallinoto, José Simões, Alcebíades Tavares, Raul Amaral, Lauro Silva, João Souto, Nazyr Salomão Antônio, Sábato e José Megale, José Sobral, Antônio Mesquita... Mingauzeiros do Mercado: Raimundo Leal, Dona Tapuia... Quitandeiros do Mercado: Benedito (Moço) Abenassif, Nazur Ferreira, Açougueiros do Mercado: Lauro Queirós, Arnolfo... Comerciante de Coreto: Aristóteles Azevedo... Industriais: Tideu Araújo, Jacó Athyas, Francisco (Chiquito) Bentes Monteiro Filho, Tereza Cordolina (Pequenina) Batista, Manoel (Manelito) Bentes Monteiro, Sebastião Lima, Nestor Ferreira, Sarita Leite... Jogadores de Futebol: Ceréu, Pedro Cumba, Fima, Barbassêca, Chico Bóia, Roque, Zé Bicudo... Donos de embarcação: Antonio Monteiro Nunes, Floriano Souza, Ivan Nunes... Estivadores: Pedro (Borrola) Batista, Charuto, Argeu Milharal... Comerciantes: Manoel Moreira, Emídio Rebêlo, Assis Carneiro, Didico Cabral, Aniz Gantuss, Hortêncio Moita, Etério Teixeira, José Leite de Melo, Waldomiro Yared... Parteiras: Tia Dada, Tia Servina, Tia Ritinha... Ferreiro: Mestre Nonato... Administradores: Zoroastro Zodíaco (Iôiô) de Oliveira, Teodorico Bentes Monteiro, Eládio Peres... Farmacêuticos: Orzila Silva, Raimundo Colares... Benzedeiros: Dona Zita, Seu Lage... Curandeiros: Aurélio Valente, João da Mata... Cartorários: Antonico Peres, Onezífora Bentes, Edgard Guimarães... Artistas: Colombiano e Benjamim Marvão, Mariazinha Barbosa, Michel Yared... Professoras: Odinéia Guimarães, Mariazinha Barbosa, Darica Oliveira, Carolina Guimarães, Tereza Cordeiro... Carreiros: Benedito Tejo, Mestre Júlio... Carpinteiro: Mestre Antonio Pancho, Mestre Nina, Mestre Baré, Mestre Bernardino...

O DONO
Fui morar no sítio Boa Esperança por insistência do seu dono Fortunato Milléo, um italiano que veio para o Brasil logo depois da I Guerra Mundial, no início do século, e se agasalhou por estas bandas, onde se fez dono de grande riqueza. Sem parentes no Brasil, era um homem de coração de bons sentimentos, trabalhador e hábil negociante. Seu círculo de amizades ultrapassou os limites do município de Alenquer, tal seu poder de influência, pois conhecia e se dava bem com pessoas do Brasil inteiro, principalmente com aquelas com quem negociava.

Salvo raras exceções, os moradores da região lhe deviam um favor de alguma forma. Os imigrantes nordestinos eram os mais agradecidos, pois quando vieram para Alenquer, chegaram com uma mão na frente e outra atrás, vazias. Ele deulhes de sociedade sem papel passado, terra, gado, cavalos, carro de boi, e crédito no Boa Esperança, para começarem a vida, exigindo apenas que tudo o que produzissem deveria ser negociado, preferencialmente, com ele. No meio desses homens tinha maranhense, cearense, paraibano, pernambucano, até mesmo capixaba e catarinense. Os pais de Hiléia começaram com uma sociedade assim e, hoje, são os únicos donos do sítio Sol Nascente, pois compraram a parte do Fortunato.

Na época em que me mudei para o Boa Esperança, eu tinha 16 anos e já escrevia e lia muito bem. Além disso, mexia também com os números, coisa rara e muito útil por ali, principalmente para quem trabalhava no comércio. Por isso, Fortunato convidoume para ajudarlhe nos negócios. Inicialmente, quando comecei a trabalhar na loja, o italiano mostravase desconfiado a meu respeito, apesar de nunca ter reclamado do meu trabalho. Cansei de flagrálo olhandome fixamente, muitas vezes com o rabo do olho, como se estivesse estudando detalhes de minha aparência ou de meu comportamento. Acho que deve estar primeiro me estudando, adquirindo confiança em mim, para depois me confiar os negócios, pensava comigo mesmo. Com o passar do tempo, acho que ele encontrou o que procurava em mim e passou a tratarme como filho, inclusive dando seu nome para constar como genitor em minha certidão de nascimento, juntamente com o da preta Zulmira. Daí, meu nome Irineu da Conceição Milléo, sendo Conceição, de Maria Zulmira da Conceição, e Milléo, de Fortunato Milléo.

Ele tinha verdadeira adoração por Hiléia e fazia gosto de que eu me casasse com ela, quanto mais cedo melhor. Acho que tinha receio de que eu me casasse com outra mulher e saísse de perto dele abandonando seus negócios, pois eu lhe era uma ajuda preciosa.

Uma coisa que me incomoda até hoje é não saber quem lhe contou que Florêncio não era meu pai verdadeiro, pois este segredo só quem sabia era a família Varela. Afinal, por aquelas paragens todos só me conheciam como filho do Florêncio e irmão da Hiléia, ninguém mais sabia que fui encontrado abandonado numa canoa, quando tinha cinco dias de parido.

CURUPIRAS E TITIRINGAS
Depois que passei a morar no Boa Esperança, ia ao Sol Nascente uma a duas vezes por mês e sempre levava comigo a preta Zulmira. ia na madrugada de sábado e voltava na madrugada de segunda feira, geralmente no fim do mês. Uma boa estirada até lá. ia de canoa pelo igarapé, porque era mais seguro, apesar de mais longe devido às suas muitas dobras. Não era recomendável andar por terra porque a mata estava infestada de bichos perigosos, como onças e cobras venenosas, além de curupiras e titiringas.

Por essas e outras razões, eu queria léguas de distância daquelas matas que até diziam serem encantadas. Era difícil alguém chegar à loja e não puxar conversa de que viu ou ouviu alguém dizer que viu curupira, titiringa e coisa e tal, naquelas matas, principalmente, se este alguém era caçador ou castanheiro. Preferia padecer remando até o Sol Nascente, terreno que conhecia como a palma da minha mão, do que ficar sendo judiado por esses bichos encantados.

Mané Arrepiado, um castanheiro daqui mesmo da região, não muito bom de trabalho, pois gostava de dormir durante, ficou três dias perdido no castanhal de baixo. Diz ele que uma curupira lhe fez andar todo esse tempo em círculo e que só encontrou o caminho de volta, porque a malina ficou com pena dele, pois três dias seguidos perdido na mata, sem comer e beber, além do mais cheio de medo, é muita malinação. Perguntado se chegou a ver a dita, disse que não, mas que ouviu os barulhos das sapopemas que ela batia e os assobios que dava...

ALGUNS FATOS
Além de entreposto comercial, o sítio Boa Esperança era também o lugar onde retumbavam todos os acontecimentos do mundo, principalmente da cidade de Alenquer. Mais dia menos dia qualquer notícia se ouvia por aqui. Afinal, muitos dos que por aqui passavam vinham de outras distâncias, que ficam além do lugar onde o céu esbarra na terra e traziam consigo as novidades de lá. Quase sempre a gente ficava sabendo das novidades do mundo antes da Cidade saber, porque elas vinha nas embarcações que comerciavam diretamente com o Boa Esperança.

Numa certa manhã, estava no balcão da loja atendendo um freguês do Cucuí que queria um boião de vaselina e um vidro de Quina Petróleo para cabelo, quando Tonico Arajá, um negociante do Mamiá, chegou alegre contando que viu um avião sentar no rio da frente da cidade e que fazia banzeiro igualzinho a um barco. Todos na loja pararam para ouvilo, inclusive eu. Muitos já tinham ouvido falar deste aparelho voador. Era bonito ver o bichozão dentro d'água, com aquelas asonas abertas o tempo todo querendo voar de novo, parecendo um patarrão do mato gigante, dizia orgulhoso. Arajá disse também que nesse dia ninguém trabalhou na cidade e que o cais da rua da frente ficou cheio de gente, pois todo mundo queria ver a bendita novidade. Chamavam ele de "Hidroavião Catalina" e era da Aeronáutica, tornou a falar. Foi essa a primeira vez que um avião pousou em Alenquer. Todas as autoridades estiveram presentes, cada qual com seu chapéu de massa na cabeça, acompanhadas da banda de música, prestigiando a chegada do ilustre visitante.

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No final da década de 50, a conversa que corria na cidade era a de que o mundo ia acabar em 1960. Uma coisa muito ruim ia acontecer como sinal. Uns achavam que seria uma peste horrível, outros que ia arriar uma chuva maior do que a do dilúvio, porque o mundo tinha mais gente do que naquele tempo e a maldade estava muito maior. Tinha aqueles que achavam que a Rússia ia tomar conta do mundo e a terra ia explodir com uma bomba atômica. Tinha também o grupo que defendia a tese de que os marcianos iam invadir a terra com seus discos voadores ou que um astro ia chocarse com a terra. Os padres pediam aos fiéis que rezassem, que não parassem de rezar, para Deus ter pena de nós, homens desobedientes.

Numa certa tarde de Segundafeira, um senhor idoso, de passagem pelo Boa Esperança e retornando de Alenquer, disse que viu no céu da cidade, em plena manhã ensolarada, "um rastro branco nas alturas, que parecia rasgar o céu de ponta a ponta". O senhor disse também que uma boa parte da população, apavorada com aquele "rasgão do céu", tanto homens como mulheres, velhos e crianças, correu para dentro das igrejas e capelas, achando que era o sinal do fim do mundo. Muito tempo depois, descobriram que o “rastro” era de um avião a jato voando muito alto. Era chegado o tempo dos jatos voarem no céu de Alenquer.

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Um caixeiroviajante de Manaus, muito nervoso, falava que nem um tagarela, que praticamente tinha visto na cidade um bando de gente armado de espingarda e revólveres entrar na delegacia de polícia da praça da igreja e matar a tiros um homem, que estava preso, porque este tinha matado um balateiro muito querido.

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Lá pelos idos de 1961, um casal, indo para a Vila, disse que a notícia que corria na cidade era a de que "um russo esteve no céu num tal “esputinique” e depois de dar uma volta em torno da terra, se estivesse passeando, desceu na maior calma dizendo que não vi nenhum Deus lá". Era o começo da corrida espacial. 

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Um dia, Zé Nanaí chegou de Alenquer carregando uma maletinha de plástico azul. Colocoua em cima do balcão, abriua e apertou um botão. A maletinha danouse a falar e a tocar. Zé era juteiro e nesse ano a safra lhe foi amiga. A maletinha era um conjugado rádioeletrola, que podia funcionar em qualquer lugar, desde que tivesse pilha de lanterna dentro. Foi o primeiro aparelho transistorizado que passou pelo Boa Esperança. Até então estes aparelhos eram de válvula e funcionavam a energia elétrica e somente as pessoas de dinheiro da cidade possuíam.

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Tempos depois, numa roda de pinga, alguém que já não lembro o nome, contou que um castanheiro de nome Cipriano, chegou pela manhã na cidade dizendo que tinham matado o presidente dos Estados Unidos. Ninguém acreditou, principalmente os políticos, porque o dito castanheiro só vivia porre, além disso, como que ele ia saber se morava no meio da mata, distante de tudo e de todos, perguntavamse. Acontece que Cipriano tinha um rádioeletrola a pilha que conseguira trocando por 20 barricas de castanha, e pegava tudo a qualquer hora e em qualquer lugar, principalmente a Voz da América. De noite, quando a “Usina de Força e Luz” da cidade funcionou, aqueles que tinham rádio ouviram a Voz do Brasil noticiar que John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, tinha sido assassinado, dia anterior. As brenhas do castanhal “Alfaiate”  da fazenda São Francisco ficou sabendo da notícia antes dos logradouros da cidade de Alenquer. Era o tempo da guerra fria entre blocos capitalista e comunista,  EUA e URSS, respectivamente, e do acirramento do racismo norteamericano. O mundo vivia apavorado com a possibilidade da terceira guerra mundial.

Eram informações assim que chegavam ao Boa Esperança e que foram enriquecendo o meu conhecimento e me colocando dentro de uma nova realidade. Uma realidade restrita, fechada, sem mistérios, mas cheia de surpresas, totalmente diferente daquela do sítio Sol Nascente, em pleno contato com a natureza. Esta nova realidade era muito luminosa, mas cheia de artificialismo, afinal é fruto da inteligência do homem e o homem ainda precisa conhecerse a si mesmo. As palavras do russo Yuri Gagarin, ao descer do espaço, dizendo que não viu nenhum Deus no céu, é uma prova dessa necessidade. Dessa forma, enquanto o Sol Nascente foi uma fonte que me proporcionou um conhecimento reflexivo sobre a criação e a natureza, inclusive eu mesmo, o Boa Esperança é um manancial de estímulos para a minha inteligência ávida em conhecer as coisas que ficam além da linha onde o céu esbarra na terra, como dizia Hiléia.

O AUTOR
Eliezer de Oliveira Martins é alenquerense da gema. Fez o curso o primário no Grupo Escolar Fulgêncio Simões (Alenquer), o ginasial no Colégio Dom Amando (Santarém), o científico no Colégio Estadual Paes de Carvalho (Belém) e o superior na Universidade Federal do Pará (Belém. Aposentouse da Petrobrás como técnico em geologia de petróleo.

Editor do jornal O Ximango, órgão de divulgação da colônia alenquerense em Belém. Flamenguista. Eleitor do Lula. Luta contra a privatização predatória, esta que está exterminando o patrimônio nacional, similar ao que está sendo feito com os índios, nossa fauna, flora e recursos minerais.

É casado. Gosta de sua mulher. De suas três filhas e netinha. Do Brasil. De Alenquer. De ler. De escrever. De música instrumental suave, inclusive clássica. De pirarucu no leite de castanha do Pará, e acari assado e no tucupi. De bom vinho. De viver. De bom humor. Detesta preguiça, mentira e prepotência. Tem um página na internet onde expõe suas idéias: www.eliezer.ninhodanatureza.nom.br.

Católico apostólico romano, cursa a Escola Diaconal Santo Efrém, no Centro de Cultura e Formação Cristã, da Arquidiocese de Belém. Afirma e confirma que alguém, para ser verdadeiramente feliz, deve crer que Jesus Cristo, filho de Deus e da Virgem Maria, veio até nós como Luz e único Caminho para chegarse a verdadeira felicidade, fora dele tudo é escuridão.

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