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  Colunas - Daniel Nascimento  
QUEM EU SOU?
Sou filho de alenquerenses (Osvaldina Ribeiro do Nascimento e José Lázaro de Carvalho e Silva). Nasci em Alenquer no dia 09 de julho de 1966. Não sei bem onde. Talvez no bairro do Aningal, na confluência da Trav. Pedro Vicente com a Av. Lauro Sodré. Sei que por volta dos 5 ou 6 anos de idade fui adotado por João e Clóris Magalhães. Isso mudou a minha vida e me deu um futuro inacessível a muitos brasileiros.

Sempre tive extrema facilidade em aprender qualquer coisa. Sempre tive a curiosidade de compreender o que me era estranho, esquisito, sem sentido. Sempre tive inclinação em aprender o que meus colegas não entendiam, para ensiná-los. Sempre procurei compreender os segredos da vida, seus problemas, suas soluções.

Acho que, explicitamente, só três pessoas conjugavam dessa minha esquisitice: a Maria José Batista, diretora do colégio na época, a Clóris Magalhães e o João Magalhães. Outras pessoas desconfiavam, como o Aldo Aníbal Arrais, o José Omar Arrais, o José Fróes, o Valdomiro Vasconcelos (meus primeiros parceiros) e o Raul Figueiredo, meu primo-irmão.

Depois de estudar no Colégio Santo Antônio, Fulgêncio Batista e na Universidade Federal do Pará, prestei concurso nacional para mestrado em Administração. (Esqueci de dizer que me formei em Administração em Belém, pela UFPA.) Consegui um dos primeiros lugares do concurso. Como não tinha recursos financeiros e dependia de bolsa, não resolvi arriscar: fui para Florianópolis, cidade pequena mas com excelente qualidade de vida e programa de mestrado. Em Florianópolis me tornei cidadão.

Lembro sempre um trecho de um belo poema de Fernando Pessoa que diz “Entre o sono e o sonho / entre em mim e o que em mim / é o que eu me suponho / corre um rio sem fim”. Alenquer é o meu sonho, o que eu me suponho, a outra margem do rio, como no poema de Benedicto Monteiro; Florianópolis é o meu sono, o que eu sou, a margem do rio onde piso. O que Alenquer me deu em idéias, Florianópolis concretizou. O resultado disso: os catarinenses reconhecem mais a minha importância do que a cidade onde nasci. Mas isso não é demérito apenas de mim.

Não me tornei apenas mestre, em Florianópolis, sou doutor. O doutorado está para o graduado (as pessoas que terminam um curso universitário são chamados de graduados) assim como a universidade está para o analfabeto. Não sei ao certo, mas acho que doutorado, da minha turma, só eu o fiz. Por isso acho engraçado que se chame, aqui no Pará, de doutor para quem não o é. Mas deixemos isso para lá.

Meu nome é Daniel Nascimento e Silva. Sou coordenador do curso de graduação em Administração: Gestão Ambiental do Instituto de Estudos Superiores da Amazônia – IESAM (http://www.iesam-pa.edu.br) e tenho auxiliado minha Instituição em busca da concretização de seus fundadores de se fundar, em plena Amazônia, um centro de excelência internacional na formação profissional de especialistas em geração de tecnologias adequadas à região, no desenvolvimento sustentável e no empreendedorismo. Voltei ao Pará para dar minha parcela de contribuição a esta terra que não merece a indignidade de ser a parte mais rica do planeta em recursos naturais e, ao mesmo tempo, ser uma das mais miseráveis.

FINAL DE ANO EM FLORIANÓPOLIS
 Meio dia do dia 31 de dezembro. Os fogos começam a encher os céus e se intensificam à medida que cai a noite. Em todas as ruas, em todas as quadras, as famílias enfeitam as ruas e fazem delas seu grande palco. Os automóveis já não podem passar, a não ser nas vias expressas. A cidade, pequena, é uma festa, onde pessoas desconhecidas (mas que todas as conhecem) se encontram e felicitam votos de felicidades de sucessos no novo ano.

Isso tudo para mim é novidade. Nunca tinha visto nada igual.

Volto as lembranças para Alenquer. Como estariam os festejos de final de ano? O que minha família estaria fazendo e seus vizinhos? Em Florianópolis parece que todos se conhecem e se gostam e teimam em fazer festa juntos. E em Alenquer? Com estariam meus amigos? Como estaria o União Esportiva, o Aningal e o Internacional?

Volto para o meu apartamento, no momento da minha solidão cercada por amigos. Olho para o Morro da Cruz e tenho a imagem do cruzeiro da minha terra; miro os olhos para as baías norte e sul e vejo o paraná de Alenquer; volto os olhos para a mata atlântica e simulo enxergar a selva amazônica. De leve cai uma típica chuva de verão, e me vejo me banhando no escaldante calor amazônico em suas tórridas chuvas diárias.

Um dos meus melhores amigos atuais chegou e falou “amigo, esta é a tradição do nosso povo; junte-se a nós, você é bem-vindo”. As lágrimas incontidas só terminaram quando aquela festa se transformou em um imenso festejo em minha homenagem, coisa que minha terra jamais fez.

Passamos a noite toda festejando os feitos individuais de cada presente naquela noite. No dia seguinte, parecia que eu conhecia a vida particular de cada pessoa, em cada feito, e isso me fez cada vez mais próximo de cada um deles. Isso me serviu para inúmeras coisas, como não jogar resto de cigarro na rua, por exemplo. Mas o que mais me marcou foi o extremo sentido que se dá, ali, à importância de cada pessoa para a melhoria contínua da vida.

Isso me fez perceber que a vida renasce em cada momento; que a vida se faz presente em cada adversidade; que a vida teima em renascer onde já se perderam todas as formas de laços com a terra natal; que a vida se faz e refaz através tanto da cultura quanto do apreço que as pessoas têm por você; que a vida é amor e sem amor ninguém existe.

LEMBRANÇAS DE ALENQUER
O lugar onde se nasce exerce uma profunda influência psíquica sobre o ser humano, da mesma forma que o lugar onde se cresce e se adquire padrões elevados de cidadania. No meu caso em particular, nasci e me criei em Alenquer, mas meus padrões de cidadania começaram a se formar em Belém e amadureceram em Florianópolis. De certa forma, sou alenquerense de coração, belemense de formação e florianopolitano de cidadania. Creio que quando estas três características formadoras do homem são concêntricas, a conseqüência inevitável é um amor intraduzível pelo berço natal.

Qual a conseqüência disso? Lembranças. Muitas lembranças. Estou convicto de que as lembranças representam um desejo muitas vezes incontido de viver o passado. É como se uma loucura incontrolável se lhe apossase e transferisse o seu presente para o passado. É um ato de loucura que faz de todo ser humano ser humano em toda a sua delicadeza e infinitude.

Às vezes fico pensando, quando entro neste belíssimo site, quando vejo fotos do passado de que não participei, quando vejo imagens do presente que estão distantes de mim, como estas mesmas “paragens” (para utilizar um termo que imagino ser exclusivamente nortista) eram extremamente diferentes na minha época. Um exemplo: onde se encontra, atualmente, uma praça em frente ao Banco do Brasil, na minha época não passava de nosso campo de futebol. A Mesa de Rendas (termo anacrônico para a Secretaria de Estado da Fazenda) era justamente onde íamos tomar água, na torneira.

Engraçado. Nossas partidas começavam depois do almoço, às duas horas da tarde, geralmente, mas não tinham hora para terminar. No meu caso, terminava quando começava o meu compromisso de trabalhar (trabalho desde muito cedo, acho que por volta dos oito anos). Sabia quando tinha que ir para casa trabalhar depois de três gols após o comércio do Zé Simões abrir as portas. Meu mundo de infância, meu tempo, era contado em gols, como se pode ver. E por compromissos.

Acho que essa loucura pelo futebol me foi extremamente útil, principalmente por me fazer bem e rápido o que tinha que fazer. Se o fazia mal, teria que refazê-lo, o que demandaria esforços extras (e isso aprendi desde cedo); se o fazia lentamente, não teria tempo de acompanhar as repercussões e os conchavos que se faziam na praça da matriz, logo mais à noite.

Tenho a impressão, hoje, de que minha vida começava logo cedo, com o trabalho com o meu pai adotivo (o grande João Magalhães) na Mesa de Rendas, se engrandecia com os jogos de futebol depois do almoço e alcançava o clímax nas reuniões com meus amigos na praça da matriz. Era este o círculo virtuoso da minha vida, naquela época. E isso me deixava extremamente feliz.

Alguém que lê esta parte pode ter todo o direito de imaginar que nunca estudei. Ledo engano. Retratei a parte que toca ao período de férias. A diferença é que os jogos de futebol à tarde eram substituídos pelas aulas, primeiro no Colégio Santo Antônio, depois no Fulgêncio Simões e, finalmente, no Amadeu Burlamaqui Simões. Fiz parte da turma que, até hoje (segundo meu primo Rogério Figueiredo), conseguiu o maior índice de aprovação no vestibular. Não sei se esta hipótese se confirma (aqui vai a primeira demonstração de ranço científico), mas tenho forte inclinação a aceitá-la.

Estudei com professores extremamente interessantes. Não esqueço da Violeta tentando me ensinar literatura (o que mais entendia, dada a exigência e influência de meu pai adotivo); da Ana Lúcia e sua geografia, para mim sem sentido na época; da Aldeísa (não se é assim que se escreve seu nome) em me ensinar português e suas orações coordenadas e subordinadas (acho que, até hoje, não as aprendi direito); do inglês da Ilka Cabral e suas pronúncias esquisitas.

Das minhas turmas de aula, é o que tenho mais saudades. Da Patrícia e Socorro Rebelo, que se mudaram de Alenquer nos primeiros anos da minha infância, sinto saudades até hoje, quando tínhamos aula com uma professora particular vizinha de minha casa, cujo nome teima em sumir de minha lembrança; da Alda Arrais, que disputava comigo os primeiros lugares de cada turma; a turma do segundo grau (Álvaro, Wanderneres, Joaquim, Rivail, Raul, Macarrão, Bastião, Maricota, Miraceres, Do Céu, Hilda, Maguila etc.), que sempre me pergunto por onde andam e o que fazem.

É engraçado. Quando estudávamos no Colégio Santo Antônio ganhei de presente de um irmão uma bola de futebol. Íamos, de minha casa até o colégio, jogando futebol pelo meio da rua – e da mesma forma voltávamos. Na realidade, a partir de hoje, não sei se vivia uma festa ou festava a vida. São lembranças como estas que marcam, remarcam, martelam e remartelam a minha cabeça.

LEMBRANÇAS DO ALDO ARRAIS
Lendo o texto do Eliezer Martins, que infelizmente não o conheço pessoalmente, vieram-me lembranças do Aldo Arrais, as formas como nos relacionávamos, os conselhos que me dava e as angústias adolescentes que me afligiam. Disso tudo tive grandes lições, conforme procurarei mostrar a seguir.

Por incrível que pareça, o que menos tento seguir é o autoritarismo com que ele se relacionava com muitas pessoas a que assisti. Sua voz era imperativa. Seus gestos eram firmes. Seu olhar era penetrante, ameaçador e amedrontador. Era impressionante a postura daquele homem. Isso parece ir contra a figura magnífica deste alenquerense, mas não o é. Sempre o via assim, sempre o assisti assim, nas minhas visões infantis.

Fui grande amigo do Paulo Arrais, nestes momentos de infância e, mais tarde, do Aldo Aníbal, parceiro fantástico que me fez conhecer com profundidade a magnificência do Aldo Arrais pai. Com o Paulo, apenas freqüentava sua casa; com o Aldo Aníbal, comecei a conhecer a profundidade e a fecundidade daquele gênio.

Fui colega de aula da Alda Arrais, com quem disputava os primeiros lugares nas provas no Fulgêncio Simões – mas nem sequer sabia a importância magistral de seu pai. A Alda é uma pessoa de quem tenho grandes saudades...

O primeiro contato maduro (se é que alguém pode ser maduro na adolescência) com o poeta o tive quando do lançamento de nosso livro (publicado em conjunto com o Aldo Aníbal, o Valdomiro Vasconcelos, o José Fróes e o Zé Omar, que ainda vou publicar neste site). A grande lição do literato foi simplesmente: “Você escreve bem, mas ainda é infantil”.

Este era o tipo de crítica que sempre adorei: que me dissessem exatamente o que é ruim e não o que era bom, mas ele apontou os dois lados. O que era escrever bem? Usar bem as palavras. O que era infantil? A mensagem essencial que eu transmitira nas minhas poesias. De pronto, concordei: uma poesia “boa” é aquela que utiliza as palavras mais adequadas para transmitir mensagens extremamente complexas. E ele passou a me mostrar exemplos de Drummond, de Bilac, de Cruz e Souza, dele mesmo, dentre outras. É claro que o olhar crítico do poeta fantástico, como ele era, recaía sobre si mesmo, quando dizia que não encontrara as palavras adequadas para alguns poemas ou o fazia de forma inadequada em mensagens (temáticas) interessantes.

A biblioteca do meu pai (João Magalhães) tinha aproximadamente mil obras, uma grande parte de poetas consagrados da literatura nacional e internacional. Pus-me a analisar cada uma delas para me certificar da lição do já então meu grande mestre. O resultado disso é que ele estava com razão. Nesta fase, já não estava eu certo de que seria poeta, ao ler as “Cartas a um Jovem Poeta”, de Reiner Maria Rilke. Como todo adolescente, mudava de ambição de futuro como se muda de roupa. E quis ser cientista. E cientista sou, hoje. Mas a poesia é quem me fascina.

Lembro de muitas vezes quando, ao falar, reproduzia trechos de minhas poesias. Imediatamente, ele pedia para que eu as dissesse novamente. Fazia-o, de forma diferente. E ele insistia: “Quero aquelas palavras originais”. Tudo terminava em gargalhadas, quando ele sabia que eu estava treinando o que ele me tinha ensinado. Foi o Aldo o meu grande mestre da literatura.

Foi o Aldo que ensinou diferenças substanciais entre os estilos poéticos, entre as chamadas “escolas” literárias, mostrou-me poetas alenquerenses desconhecidos, como Favila Gentil. Ele comprava, quase toda noite, quilos de camarões dos pescadores de perto da casa dele, que já vinham preparados, para que pudéssemos tomar cachaça e conversar sobre poesia, sobre os futuros por ele desejado, pelos seus sonhos de futuros para Alenquer.

Nesta época, tornou-se um apaixonado por música – e eu também. Convidava os principais músicos da cidade para tocar em sua casa, aproveitando a oportunidade para musicar suas poesias ou suas mensagens – como eu o alertava. É dessa época, por exemplo, a Canção do Centenário de Alenquer (“Das gentes e dos tempos bons de outrora / Alenquer dos cem anos que saudades...)”. Esta música tem marcado a minha vida pelos quatro cantos do mundo por onde passei.

Amadureci bastante sobre a orientação do mestre Aldo. Ele uma vez sugeriu que eu fosse advogado, sua grande paixão. Sua explicação: eu teria carisma. Não sabia ao certo o que era carisma, apenas o que dizem os dicionários, mas suspeitava que o poeta estava adentrando outras dimensões sintáticas e pragmáticas do termo. Na verdade, creio eu hoje, ele não me queria um advogado, mas um político, como resposta à possível frustração do ato tirano de lhe ter tirado o poder legitimamente conquistado.

Ainda me lembro da nossa última conversa, quando eu estava seguindo para o exército. Suas palavras foram: “Tu estás escolhendo o caminho mais difícil para o teu destino, mas eu respeito tua vontade, poetinha”. Naturalmente que o poetinha estava relacionado com a minha estatura.

Ainda faltavam dois dias para a minha partida. Na véspera, embebedado com alguns amigos na praça da matriz, ao voltar para casa, encontro com o Aldo, saindo da casa do Omar Arrais, seu irmão. Seguimos juntos a rua Rosomiro Batista conversando, subimos a travessa Arnaldo Morais (a minha rua), paramos e sentamos na calçada de minha casa. Ficamos conversando por mais ou menos uma hora.

De forma premonitória, o poeta falou que eu jamais voltaria (segundo ele, o mundo era meu); meu destino estava para além de Alenquer (minha residência é Belém, mas meu domicílio é Florianópolis); conheceria o mundo, se soubesse aproveitar (conheço grande parte dos países desenvolvidos); seria alguém importante, se seguisse o caminho que sempre trilhei (sou professor de diversos cursos de mestrado e doutorado no país e fora do país); mas, depois de tudo, teria a Amazônia como o grande objeto de minhas atividades profissionais (voltei à Amazônia com o objetivo de me tornar uma das maiores autoridades mundiais em gestão desta região). Por isso sempre falo que o Aldo é o Pajé Aldo.

Voltando ao início. Disse-lhe certa vez que, no começo, tomava-o como autoritário, como pedante e tudo o que as pessoas que não conheciam pessoal e detidamente poderiam lhe apregoar. Com exatidão às nossas teorias gerenciais, ele calidamente explicou que cada pessoa tem o seu estilo relacional. Há pessoas que só lhe entendem sendo autoritário coercitivo: ou faz o que exijo, ou mando lhe prender (ele era advogado); se você fizer o que mando, lhe dou algo em recompensa; se você me disser como se sai desse problema, deixo você fazer; se você me ajudar a resolver esta questão, ajudo você a executar. Nada mais belo e científico do que as lições de Rensis Likert, um dos gigantes da Administração.

Aldo Arrais, portanto era um poeta, um político, um Administrador, um Advogado, uma gente do povo, um sensitivo, um mago: um homem.

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