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  História - Pacoval  

CARTA DE AMOR DESESPERADO

Sabes, Alenquer, que abandonei o Rio de Janeiro em plena mocidade, com um livro de poemas lançado e elogiado, quando ela era a Cidade Maravilhosa ainda capital do Brasil. Troquei o Rio por Alenquer, interrompi a minha carreira literária e os meus estudos de Direito, só para te ver de novo. Voltei para casa dos meus pais como um filho pródigo. E me perdi nos teus campos, nos teus rios e nas tuas ruas. Me embrenhei pelas tuas matas e fiz do teu povo cúmplice das minhas serestas. Dos meus sonhos, dos meus amores, das minhas esperanças e de minhas loucuras. Fui teu vereador, teu promotor e teu juiz. Depois fui teu representante na Assembléia Legislativa do Estado. Fui teu representante no governo. E eu e o teu povo reconstruímos o teu trapiche, fizemos o teu campo de pouso. Conservamos as linhas arquitetônicas da Prefeitura e reconstrUímos o Grupo Escolar Fulgêncio Simões. E cada bairro tinha seu clube: União Esportiva, no centro; Aningal, no Aningal; e, na Luanda, o Internacional. Construímos teu estádio e os clubes disputavam o melhor futebol. Era um tempo feliz para o teu povo, que produzia castanha, balata, juta, semente de juta até para exportar. Tinha as tuas grandes e pequenas fazendas de gado e um povo trabalhador agasalhado nas colônias, produzindo alimentos até para abastecer Belém e Manaus. Chegaste a ter usinas de beneficiamento de arroz e beneficiamento de pirarucu melhor que o bacalhau. Te davas o luxo de exportar os teus peixes de pele e guardar os teus peixes de escama para a tua gastronomia. E tua frente da cidade era limpa e desembaraçada, para o teu olhar acompanhar a correnteza do nosso pequeno e tortuoso rio. Não tinha as favelas que hoje enfeiam a tua fachada.Chegaste a ser, em importância, a terceira cidade do Pará. Não tinhas um trapiche caindo, uma prefeitura destelhada, um campo de pouso interditado, um estádio em ruínas e três clube sociais definitivamente fechados. Tinhas famílias, Alenquer. Tinhas grandes fazendeiros, milhares de agricultores, pequenos criadores e uma produção que te sustentava. Tinhas sociedade. Tinha liberdade. Tinhas identidade. O teu povo tinha cidadania da qual muito se orgulhava. Hoje, és município falido. Pior do que isso, és um município de um povo falido, que depende de Óbidos, de Monte Alegre e de Santarém para sobreviver. Comercialmente, és um subúrbio dessas cidades. És um município que vive somente do dinheiro da Prefeitura, isto é, do dinheiro arrecadado pelo Estado e pela União. E, lamentavelmente, parece que do dinheiro do trânsito do narcotráfico. Eu, que te amo tanto, tenho que estar desesperado. Desesperado por ver teus rios, nas tuas estradas e nas tuas ruas uma população de crianças e jovens completamente abandonada. Sem perspectiva de qualquer trabalho. Jovens, homens e mulheres que não tem um destino, porque a cidade, o município, não oferece qualquer perspectiva profissional para essa juventude maravilhosa. E não é só o ensino que não capacita nas escolas. É o município mesmo, a cidade mesma que não oferece oportunidade. Não tem mais agricultura, não tem mais comércio independente, não tem qualquer indústria, não tem serviços nem mesmo artesanato, que possam empregar a mão-de-obra ociosa, quanto mais os milhares de jovens que saem da adolescência e das escolas. Esvaziaram-se a tua ricas várgeas, dizimaram-se os castanhais, os cumaruzais e os balatais que a natureza nos confiou tão pródigos. E os nossos rios e os nossos lagos tão piscosos, hoje servem apenas de reservas para outras cidades. A terra roxa, a terra fértil, que foi atravessada pela nossa única estrada, além de perder a sua floresta, foi transformada em capoeiras e pastos. A outrora florescente pecuária está estagnada. Os laranjais do Cuipéua estão acabando e nenhuma plantação de espécies permanentes existe nas nossas terras. As instalações em ruínas da Cibrazem, com seus armazéns e frigoríficos desativados e o próprio prédio da Cooperativa, são os exemplos maiores dessa defasagem. Mesmo assim, Alenquer, eu te amo tanto que tenho que estar desesperado. Não é só por tua causa. É por causa de mim mesmo, que fui arrancado do teu seio há 30 anos, desde 1964. Deves te lembrar de mim passando pelos teus rios e pelas tuas ruas quase nu, descalço, amarrado e algemado. Só porque dedicava toda a minha vida ao teu povo. E aí, eu fui acusado também de comunista e subversivo. E por 20 anos completamente marginalizado da vida pública. Nada do que eu fui depois, Procurador Geral do Estado, Deputado Federal e Constituinte, dependeu do teu voto. Belém, Marabá, Ananindeua me elegeram cidadão de novo. E eu estou vivo, como escritor e pensador, não para chorar por ti, mas para te amar desesperadamente.

          Benedicto Monteiro.

 

 
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